CARLOS CASTANEDA

O Mito do Nagual.

 

Por que alguém iria perder o seu precioso tempo estudando e discutindo Carlos Castaneda? Debatendo sobre algo tão obscuro para o leigo, como a fenomenologia e hermenêutica aplicada?

Castaneda surpreendeu a todos quando publicou o seu primeiro livro. De lá para cá ele vem surpreendendo ainda mais. Ficaram longe no tempo as suas experiências alucinógenas. Embora muitos de seu primeiros leitores, tenham comprado os primeiros livros entusiasmados por encontrarem respaldo científico ao uso de drogas alucinógenas, hoje sabemos que havia muito, muito mais naqueles livros. É um conhecimento antigo, vasto e muito sofisticado para controlar a consciência. Chamamos de feitiçaria, por ser algo tão estranho à nossa maneira de vermos o mundo. Porém, as implicações filosóficas são tremendas. os ensinamentos de Dom Juan Matus sempre terão o frescor da novidade. Nem Castaneda, muito menos seu mestre, se parecem com gurus. Dom Juan, por exemplo tem um carisma e um senso de humor delicioso. Mesmo sendo descrito tanto por Castaneda quanto por Taisha e Florinda, ele desperta nos leitores total confiança. Hoje Castaneda deixa ao mundo o seu legado. Os segredos já estão revelados. Qualquer um pode ter acesso ao conhecimento dos antigos Toltecas.

Desde 1991, Castaneda, ou melhor o Nagual Castaneda, depois de anos sem dar as caras, começa a frequentar reuniões fechadas, nos EUA, México e Espanha. Passa, pouco a pouco a ensinar nessas reuniões a sua versão dos "Passes Mágicos", batizada por ele, com o nome de Tensegridade. As reuniões passam a se transformar em seminários abertos, onde qualquer um pode se inscrever (desde que tenham dinheiro para isso, claro...), Castaneda aparece junto com Florinda Donner, Taisha Abelar, Carol Tiggs e o fantástico ser "Batedor Azul". Florinda e Taisha escrevem livros onde contam como conheceram e foram treinadas por D. Juan. Castaneda em 1993 em seu livro "A arte do sonhar", narra uma história bizarra e, é claro, para a delícia de qualquer cético, incrível. Você deve ter lido o livro, para saber que falo sobre o "batedor azul" (caso contrário dê uma lida no resumo que fiz). Pois o "Batedor Azul" existe, é uma jovem misteriosa que tem grande influência sobre Castaneda e seu grupo.

Em 1998 Castaneda falece. Segundo seu atestado de óbito, vítima de um câncer de fígado (em algumas entrevistas, ele diz que "sonhar" pesa muito para seu corpo, principalmente seu fígado), seu corpo é rapidamente cremado, e nenhum parente é avisado. Somente em junho a notícia vaza para a imprensa, pois seu filho (não reconhecido) Carlton, resolve entrar na justiça para contestar o testamento do falecido pai.

Castaneda nunca se importou com mentiras ou verdades... isso está claro em seus livros. Parece que alguns dos primeiros praticantes da tensegridade se sentiram chateados por descobrirem "pequenas mentiras" de Castaneda. Pouco do que ele dizia, ou do que seus companheiros diziam, parecia corresponder com a verdade. E como verdade, estou me referindo à verdade consensual, documentada, e não a qualquer outra versão de verdade. Foram então, criaram várias listas de discussões na Internet.

Uma das "mentiras" de Castaneda, e justamente a que mais polêmica causou, foi a história da Mulher Nagual, que teria desaparecido na "Segunda Atenção" durante 12 anos, de 1973 a 1985, quando ela ressurgiu. Esse ressurgimento significaria que Castaneda estava rompendo com as tradições de D. Juan. Ele não mais poderia dar continuidade à linhagem do velho Nagual. Assim Castaneda resolve entregar a parte crucial dos ensinamentos à qualquer um que queira ouvir.

Tudo ia bem até que algum chato descobriu que Carol Tiggs, na verdade era Muni Alexander, ou melhor Elizabeth Austin ou ainda Kathleen A. Pohlman, e que estaria matriculada em uma escola de acupuntura, era casada e se divorcia exatamente na mesma época em que estaria "perdida no mar infinito" ou na segunda atenção.

Houve muitas reações por parte dos praticantes que exigiram explicações à Cleargreen, empresa criada por Castaneda para administrar os seminários. Eles explicaram que a mulher nagual estaria em dois lugares ao mesmo tempo... Mas não sem antes, tropeçarem em suas próprias palavras.

Somado a isso vem a artilharia pesada dos colegas cientistas. Eles acusam Castaneda de escrever ficção e vender como se fosse verdade. Acusam de não utilizar-se da metodologia científica. De dizer que seus livros são tratados de antropologia, quando na verdade não o são (ainda bem... senão ninguém iria querer ler!). De ter inventado a figura de Dom Juan e toda a sua doutrina!

Muitos jornalistas também têm ressentimentos contra Castaneda devido a sua insistente negativa em dar entrevistas. Muitos queriam ganhar dinheiro com a sua imagem no passado, justamente quando seus livros estavam no auge (anos 70). Mas ele não permitiu... Preferiu o anominato.

Hoje em dia, acusam Castaneda exatamente de querer ganhar dinheiro explorando as pobres almas em seus seminários. Ainda que muitos se sintam muito bem com a sua série de exercícios. Poucos vêem energia, e por isso acham que foram ludibriados. Lembrem-se: o que realmente libera a energia é o controle total sobre o ego, melhor dizendo, somente a destruição total e sistemática da idéia do "EU". Por isso, obviamente, quem conseguir acumular energia suficiente não irá sair por aí falando que viu ovos luminosos... não sentirá necessidade de fazer isso. Desconfie daqueles que falam. Como Taisha, Florinda e Carol dizem que vêem, alguns desconfiam delas... o que no final me parece justo.

Mas a decisão de ver a tensegridade como algo mágico é sua, caro leitor. Alguma boa razão você, como eu, teve para comprar o primeiro livro... e ansiosamente querer ler mais e mais... Ou então podemos cacetear sobre eles, exatamente como fazemos com a nossa vida, e torná-lo sem graça... apenas uma bobagem que nem deveria ser levada em consideração.

Eu enxergo, ainda que com alguma dificuldade, algo mágico por baixo, como plano de fundo. As orientações de D Juan, o estilo de vida dos antigos brujos guerreiros, a impecabilidade, a luta para derrotar a auto importância, o pragmatismo em lidar com algo tão abstrato e assustadoramente apaixonante quanto a idéia da liberdade, a visão moderna, a força inegável que os atuais praticantes têm, parece apontar para algo realmente mágico.

Onde está a lógica na mágica?

Alguns poderão dizer que seus fãs escondem a cabeça na areia, como avestruz, e resolvem ignorar as "provas" irrefutáveis. Infelizmente é verdade. Há muitos assim. Porém, o próprio Castaneda escreveu que todos devem cultivar a mente. Ele próprio, um acadêmico brilhante, segundo alguns antigos professores, lutou muito para manter sempre a razão em voga, mesmo que isso lhe custasse muito.

O que proponho com este pequeno pedaço na Internet, é procurar discutir, colocar em ordem alguns fatos. Não para encontrar a "verdade", mas para tentar ter um vislumbre daquele algo mais, que se esconde por trás de sua obra. Empresto uma frase de Friedrich Schleiermacher (1768-1834), "Ler um texto, é dialogar com um autor e esforçar-se por reencontrar a sua intenção, é procurar compreender um espírito por intermédio da decifração das obras nas quais ele se exprimiu." Sempre sem esquecer de que ele era um ser humano. O que o dignifica ainda mais.

 

José Luís Barudi Meza

jol28@bol.com.br

Foz do Iguaçu, 05 de janeiro de 2002.

 

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